
o conceito de solidão deve ser revisto quando observamos e estudamos a ecologia da lontra neotropical. Simplesmente afirmar que a Lontra longicaudis é uma espécie solitária não é o bastante. Existe um mundo de coisas por trás disso. Quando observamos uma lontra no ambiente natural ela normalmente está sozinha, mas a solidão, nesse caso não se aplica. Não existe o vazio. Pelo contrário, a forma como o animal interage com o ambiente é pura poesia. Ao contrário da ariranha, uma prima próxima, a lontra não tem necessidade de viver em grupo ou manter um grupo unido. As lontras são menos sensíveis ao isolamento, mais aventureiras, mais destemidas. Exploram novos ambientes com mais facilidade. A lontra é mais ativa durante a noite, enquanto a ariranha durante o dia. O caráter solitário da lontra faz com que ela seja mais difícil de ver do que a ariranha. Mais tímida? Talvez, mesmo considerando que estamos levando em conta conceitos humanos. Nesse caso, o conceito de solidão deve ser revisto. Ecologicamente falando não faz muito sentido. Ecologicamente falando podem representar estratégias de sobrevivência, e podemos aprender com isso, principalmente quando consideramos cenários futuros. O desmatamento da Amazonia e da Mata Atlântica por exemplo. Segundo o relatório Assessment of the Risk of Amazon Dieback feito pelo Banco Mundial, cerca de 75% da floresta Amazônica pode ser perdido até 2025. Em 2075, podem restar apenas 5% de florestas no leste da Amazônia. O processo é resultado de desmatamento, mudanças climáticas e queimadas. Da mesma forma, hoje, praticamente 90% da Mata Atlântica em toda a extensão territorial brasileira está totalmente destruída. Do que restou, acredita-se que 75% está sob risco de extinção total, necessitando de atitudes urgentes de órgãos mundiais de preservação ambiental, principalmente com relação às espécies que estão sendo eliminadas da natureza de forma acelerada. Os remanescentes da Mata Atlântica situam-se principalmente nas Serras do Mar e da Mantiqueira, em áreas de relevo acidentado. Não só a lontra está ameaçada, mas nós mesmos. Estratégias adotadas por animais como lontra e ariranhas talvez possam significar uma luz para nossa própria ignorância.

